Infrutifero

Foi então que sorrateiramente transfigurou-se a minha percepção. A nova realidade era surpreendentemente macabra em meus novos olhos. Milhões de anos com bilhões de pessoas vivendo trilhões de experiências. Bem aqui, bem agora, tudo deles estava ao meu redor, o dobro disso tudo em sentimentos vividos, desde uma leve inveja até um amor arrasadoramente suicida, na vida de cada um destes seres, todos estes anos. Bem aqui, bem agora, na frente de meus novos olhos. Arrepiando minha corcunda, transbordando minha mente. Então respirei profundamente e pensei em uma saída. Como iria me achar nesse mar de caos? Calmo, analisei só os sentimentos. Meus sentimentos em minha vida como apenas uma unidade. Passei depois para o resto, humanos que nasceram a 100 mil anos, e humanos que nascem aqui agora, a cada segundo. Tudo por o que muitos estão passando exatamente agora. “Tudo foi um acaso!” Diz a nova realidade com um sorriso estranho e sarcástico. “Nada é planejado! Tudo é apenas uma lógica que te mostro agora”. Conclui: “Isso é inexistência de um Deus e a incontinuidade da consciência”. “Tudo que é diferente para nós não passa de uma classificação lingüística”. “Só existe matéria e vácuo”. A peluda realidade foi me rasgando e roendo minha carne. Meu ultimo pedaço de cérebro antes de ser comido gritou com ela, raivoso. Eu queria mudar o mundo, precisávamos mudar. A peluda de espinhos gargalhou sangue e disse: “Teu pior pesadelo é não poder fazer nada e essa vontade de mudar é apenas instinto”. Ela havia me pegado com força e agora devorara meu ultimo pedaço. Tudo não passava apenas de uma emoção por estar domado a milhões de anos de evolução. A minha vontade de fazer algo era apenas a seleção natural, a lógica sem objetivo. Era apenas o ser animal que todos somos, matéria movimentando-se em vão.
Agora, eu, já não sendo mais eu, e talvez sendo o resultado de ser comido pela neutra realidade, pensei em subir catatonicamente até o 16° andar e pular para me estatelar ao chão. Desfragmentando assim meu celebro e desligando meu complexo PC interno. Não deixando de ser só e simplesmente matéria, sendo a mesma coisa, só que desorganizada. “Não há razão para chorar quando alguém morre. Não! Nem mesmo existe razão para chorar”. Só que essa vontade de desorganizar-se não venceu milhões de anos de seleção natural, que escolheu sempre aquele que sobreviveu, resultando em extintos de sobrevivência tão forte dentro de mim, nunca 30 minutos de visão da realidade pode matar milhões de anos em ilusões. Continuo sendo o que a lógica desenvolveu: Matéria bruta autônoma que acasala e irrefutavelmente se desorganizara, pura e simplesmente ação e reação. Sem motivo assim como o ar sobe quando é aquecido: eu vivo.
Yuri Silva Herdt


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